Acabei de pensar
nisso
quem pariu
deixou de ser "eu"
passou a ser "nós"
não que se aplique
ao todo
claro.
mas quem
realmente
carregou
no ventre
um filho
e o deu
à luz
perdeu a identidade
passou a ser mãe
passou a ter
numero de registro
duplo
na vida
no mundo.
Não existe mais
vontade
ou prioridade
que não seja
a cria.
Que não conte
por dois
que não tenha
que repensar
a palavra
dita
a frase feita
o direito
de mandar
o patrão
se fuder.
quem pariu
e assume
não tem mais
vida própria
e noites felizes
sono tranquilo
direito
de ir e vir...
quem pariu
perdeu
o direito
de sonhos infames
e mesmo
de sonhos
no geral
acorda de noite
vira madrugada
mede febrinhas
acorda pediatra
nos febrões
não fecha os olhos
porque o mundo
é mau...
quem pariu faz bolo
de chocolate
com cobertura
quando só queria
entrar num buraco
e dormir
uma semana
quem teve
um outro ser
dentro de si
por meses
e meses
chutando as costelas
sabe o que é
amor
incondicional
ou deveria saber...
nunca mais tem paz
nunca mais tem direito
de escolher
a melhor
opção
pra si só..
é sempre pra dois
ou três...
ou tantos quanto
tenha colocado
neste mundo.
Quem pariu
perde a chance
de escolhas
egoístas
do pensar só em
si
de se pensar
sem o apêndice
a outra parte
de você mesmo
vivendo fora
criando caso
virando gente
gritando opiniões
e conceitos
dissonantes
de suas verdades
quem pariu
deu ao mundo
outro indivíduo
ligado em carne e osso
e emoção
a você mesmo.
Sua cópia
sua antítese
sua realização
outro ser
que é você
e é só ele mesmo
quem sentiu
uma pessoa
mexer
dentro de si...
e viu crescer
uma barriga imensa
e sentiu o que é...
colocar pra fora
nesse mundo maluco
parte de você mesmo
não abre mão
não desliga
não consegue dimensionar
o amor
externo
sem causa
e conteúdo
somente
pelo prazer
amor
amor de verdade
amor por sua parte
externada
extirpada
no parto
mas sempre
sempre
ligada
no coração...
quem pariu sabe
ou deveria saber
o que é amor
o que é amar...
E mesmo
em meio
à essa dualidade
de sou um
e sou dois
na qual suas vontades
gritam
mas sua parte externa
grita
mais alto ainda...
Tudo o que te importa
é importante demais
mas tudo o que te importa
tem que comportar
duas vidas...
Minha querida Anais, deslisando na leitura de teu post, lembrei que sempre digo às mulheres, amigas que vão ter filhos, que elas perdem a identidade, e não as chamo mais pelo nome, mas a mãe do fulaninho, uso como brincadeira com pessoas próximas, mas é verdadeiramente o que sinto, e neste rolo compressor de palavras emaranhadas em sentimentos que derramas em verso e parto (talvez a dor mais doída), que estão além de nos, muito além, assim como é difícil explicar amor incondicional sem ter parido, tens razão, eu ainda sou o filho, então continuo recebendo este amor, que possivelmente não conhecerei, até porque no máximo seria pai rs...sempre muito bom estar por aqui, sempre tão viva, tão real, tão próxima do meu coração, sinto assim...sinto-me em casa.
ResponderExcluirps. Carinho respeito e abraço.