sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rien de rien

A cada dia
que me levanto
me penteio e me vou
em busca dos desafios diarios
atender às solicitações do mundo
em cada momento que me arrasto
pra fora de mim mesma
e ergo a cabeça
levanto os ombros
sacudo pra longe
a vontade
de me enrodilhar
baixar a cabeça
e dormir
a cada passo dado
cada meta cumprida
sinto esgarçar
a fina película
da força
necessária
para sobreviver
a cada não
mal recebido
a cada tristeza
a cada lágrima
não chorada
a cada sorriso
forçado
a cada bom dia
mentido
a cada silêncio
cheio de gritos
calados
sinto esvair-se
em si mesma
a coragem
a esperança
a pretensa
felicidade
obrigatória
e arredia
a cada copo
cheio
e vazio
sinto
a embriaguês
anéstésica
e necessária
dos sentidos
maltratados
pelas palavras
malditas
nas horas
erradas
as dores
da convivência
as dores
da ausência
com tudo
com todos
com ninguém
em especial
A cada dia que
amanhece
sinto vontade
da noite
pra estar acordada
evitando
a sonolência
que conduz
ao day after
que não quero ver
não quero viver
não quero saber
não quero mais nada
apenas submergir
submergir no nada
no não pensamento
no não sentimento
apenas no não
quero a desculpa
perfeita
do suicídio em vida
de mergulhar
na depressão
de fugir do mundo
devidamente apoiada
na covardia
da entrega
à incapacidade
de sobreviver
ao heroísmo
cotidiano
de ser comum.

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