sábado, 28 de novembro de 2015

Tempo

Quem viu o tempo
passar?
Uma postagem comum
de amiga
em rede social
a filha
que vi nascer
e antes disso
cuja mãe
vi pousar
de flor em flor
na faculdade
até noivar
casar
e temer durante anos
a ideia de ser mãe
faz dezenove anos...
como assim?
Eu a vi
quando era apenas
uma barriga de grávida
e quando nem era
projeto
era apenas
medo
e antes
e antes
e lá se vão
dezenove anos
após toda uma outra
história
e penso
a chefinha
já tem quatorze
quase
quase quinze
virando gente
ou achando que sim...
a miúda
com vinte e alguns
terminando faculdade
namorando há anos
seu alemão
perfeito
cheia de ideiais e opiniões...
essas crianças
que botei no colo
que troquei fraldas
tomando conta
do mundo...
Outras tendo filhos
outras eu nem sei...
O tempo passou
e eu ainda lembro
dos bailes
de adolescente
beijos roubados
no escuro
primeiro namorado
escondido
fugir pra casa da avó
por causa do menino
bonito
de ombros largos
da vizinhança
de mãos decentes
sobre as roupas...
Velha que sou
quando namorava
na adolescência
ainda se usava
roupa durante
porque nem havia
depois...
Reminiscências...
mas o tempo corre
e escorre
entre os dedos.
Ontem foi logo
ali...
e hoje
hoje é tão longe
disso...
Minhas crianças
estão adultas
ou no limiar
quase lá...
muito perto
de perderem
também
a noção
do tempo
passando ao largo...
Logo logo...
estarão imersas
no caos
do dia a dia
das responsabilidades.
estão chegando perto
da época
das responsabilidades
de se perder
de si
na guerra
da vida.
Que pega
e carrega
e dopa.
Que te faz perder a noção
das alegrias
pequenas
do que se come
do que se goza
do que se pega
em cada mão...
é só correr
correr atrás
correr na frente
a época da inocência
se vai
se esvai
as dores
e amores
adultos
chegam e tomam conta
os problemas
de gente grande
absorvem
carregam
cegam...
e o tempo passa
as articulações
reclamam.
As pessoas se tornam
cada dia
mais
ridículas...
o trabalho
o estudo
o parceiro
a obrigação...
Te tosam
assimilam
doutrinam
e o tempo
passa.
As concessões
se tornam
obrigatórias
as decepções
se tornam
rotineiras.
E o tempo
esse
só passa
inexoravelmente...
Alguns se casam
e acomodam.
Outros separam
e tentam reviver
algum sentimento...
uns conseguem
outros não.
Alguns desistem
e retornam.
Outros viram amantes
do ex parceiro.
Ou de todo mundo.
Ou de alguns escolhidos.
Ou de algum outro amor...
E no fim...
todos se acomodam
ao medo
de viver só...
Juntos ou separados
convivem
com suas inadequações
com suas escolhas
certas
erradas
e as consequências...
E o mundo gira
e o tempo passa
e uma nova geração
se apresenta
ao mundo.
Cheia de certezas
que já decoramos
há anos atrás...
o ciclo infinito
do ser humano
de crescer, aprender
opinar
se erguer
e se dobrar
frente
ao tempo.

Essa história toda me lembrou de duas músicas, que postarei em seguida... duas músicas lindas, cheias de conteúdo, significados. E imensamente tristes.

Dedico esse texto ao Homem Invisível... que se deixou vencer pelo conformismo desde sempre. Que, segundo minhas meninas, deve ter visto a novela da globo e ido dormir cedo, porque trabalha amanhã, e depois e depois... que deixou o tempo, a rotina, as responsabilidades, o egocentrismo e a solidão tolherem e escravizarem qualquer tentativa, mesmo que tardia... de tentar ser feliz.




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