terça-feira, 14 de junho de 2011

Palavras

Perguntam-me
sobre as minhas palavras
eu
que nem sei de mim
muito bem
também não sei
onde andam
as tais palavras
todas elas
as palavras engraçadas
cheias de ironia
saindo
de um sorriso de lado
no cantinho da boca
as palavras duras
sempre despejadas
intempestivamente
em meio a crises
de mal humor
ou inconformismo
com alguma
falta alheia
as palavras doces
ditas de bom grado
para ouvidos surdos
e muitas vezes
para ouvidos
de amigos queridos
ou pessoas amadas
as palavras inteligentes
cheias de conteúdo
sobre uma coisa
ou outra
essas andam guardadas
esperando
a chance
de serem aproveitadas
as palavras impacientes
saltando da alma
gritando
para serem
ouvidas
em algum abismo
pelas noites
essas estão perdidas
tão perdidas
quanto eu
neste momento
restam as palavras
tristes
as que me nego
admitir
as que nem quero
pensar
as palavras
que me povoam a mente
em meio ao trânsito
horroroso
da tarde e das manhãs
do Rio de Janeiro
que não me deixam dormir
à noite
me fazem revirar na cama
insone
aquelas que me fazem
ansiar
para serem chutadas pra fora
que são planejadas
dia a dia
noite a noite
em meio a músicas
pra relaxar
em meio ao caos
do centro da Cidade
por onde caminho
e consumo
as palavras que repito
na mente
a cada exercício
mais pesado
que o anterior
aquelas que estou digerindo
formulando
modelando
esperando a hora
de
não escrever
mas de gritar
não são
boas palavras
são pequenas tormentas
acumuladas
tornando-se furacão
no meu coração
são palavras feias
palavras rudes
palavras
cheias de arestas
de porquês
e de senãos
são palavras rudes
doloridas
magoadas
são palavras
que não devem
ser ditas
não deviam ser
necessárias
não deveriam
estar por aqui
estas palavras
que não me fazem bem
tão bem guardadas
dentro de mim
loucas pra fugir
e levar consigo
tudo
o que as acompanha
Não deviam
existir
nem acontecer
mas pra deixarem de existir
elas precisam ir
sair
explodir
em tempestade
fazer chorar
fazer doer
fazer sentir...
serem gastas
despejadas
desconstruídas...
Para enfim
talvez
voltar a paz
da compreensão
se não isso
ao menos
o alívio
de por pra fora
todas estas palavras
que me engolem
me entorpecem
me saturam
a alma
atualmente.

Talvez assim
talvez aí
eu ache novamente
as minhas outras
palavras
em português
em francês
arranhando o inglês
seja em que idioma
for
Quero de volta
minha voz
e minha vida.
Quero de volta
minha inspiração
para coisas boas
se é que algum dia
isso existiu
por aqui.

Um comentário:

  1. Sintonia ? Acho que tenho isso com quem gosto. Estas palavras que te sufocam, e não são belas, mas precisam ser postas para fora...também as preciso vomitar, berrar...talvez não tenha ouvidos disposta a escutarem...no mais as pessoas preferem as falsas palavras de felicidade ou elogios..hoje não consigo, então acho que vim no lugar certo (não te gritarei palavras feias...mas o que são palavras feias?). Vim porque é teu blog e li PALAVRAS, o título e gosto da palavra 'PALAVRA'. Tenho tantas, tantas, dentro de mim, feias, belas, tristes, alegres...hoje acordei assim, melhor, no começo do trabalho, vieram algumas reclamações (eu me dedico tanto, mas a certa altura o volume de trabalho é demais, e infelizmente acaba ocorrendo alguma troca de lugar do que não deveria, mas as pessoas gostam de ferir, magoar, e eu vulnerável, caio na armadilha, e tudo é uma solução simples, se não está aí, está aqui, nada se perde, logo aparece, e é o que ocorre, mas me deixo cair na cilada, agora já é tarde, e já tou procurando uma corda para me enforcar...). Mas depois de ler teu post, e agora que verborregei um pouco, me sinto melhor...até já tomei meu segundo rivotril, o que não estava sendo comum, no máximo meio ao acordar...Valeu cara amiga, acho que vou parar de procurar a corda e deixar a morte para outro dia...
    ps.Um imenso abraço sincero e querendo viver.
    ps.2 adorei a placa, preciso dela no meu trabalho (rsrsrsrsrs).

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